Essa é uma das crenças mais antigas quando o assunto é alimentação. A pessoa começa a tossir, fica com o nariz cheio de secreção e logo surge um suspeito: o leite.

Para a maioria das pessoas, porém, o leite não aumenta a produção de catarro.

O que pode acontecer é uma sensação passageira de saliva mais espessa ou de uma camada revestindo a boca e a garganta. Quando o leite se mistura à saliva, a textura percebida na boca pode mudar temporariamente. Essa sensação não significa que o organismo esteja produzindo mais secreção.

Diversos estudos já investigaram essa relação. Pesquisadores compararam leite com bebidas placebo de textura semelhante, acompanharam adultos infectados com o vírus do resfriado e avaliaram crianças e adolescentes, com e sem asma, depois do consumo de leite. Foram analisados tanto sintomas relatados pelos participantes quanto medidas objetivas, como quantidade de secreção nasal, função pulmonar e inflamação das vias aéreas. De modo geral, quem tomou leite não produziu mais secreção nem apresentou piora respiratória em comparação com quem recebeu outras bebidas. Em alguns estudos, pessoas que já acreditavam que o leite produzia catarro relataram mais sintomas, mas sem aumento correspondente nas medidas objetivas.

Quando analisamos o conjunto dos estudos, a evidência não sustenta a afirmação de que o leite aumente objetivamente o catarro. O que os resultados explicam melhor é uma mudança transitória da sensação na boca e na garganta.

Além disso, como na nossa cultura muitas pessoas consomem leite e derivados todos os dias, é fácil criar uma associação. A pessoa está resfriada, com rinite ou com outra doença respiratória, toma leite como de costume e atribui ao alimento uma secreção que já fazia parte do próprio quadro.

Isso não significa que a alergia às proteínas do leite de vaca não exista. Ela existe e pode provocar reações importantes. Porém, catarro ou secreção nasal isoladamente não são sintomas de alergia às proteínas do leite.

Por isso, retirar leite e derivados apenas por causa de catarro geralmente não trata a verdadeira causa do sintoma e ainda pode gerar restrições desnecessárias. Quando a secreção é frequente ou persistente, o mais adequado é investigar outras causas, como infecções, rinite, asma e doenças das vias respiratórias.