Uma pessoa apresenta urticária e logo surgem as primeiras perguntas: comeu alguma coisa colorida? Chupou uma bala? Tomou um suco? Comeu gelatina?
Antes mesmo de qualquer investigação, o diagnóstico já parece pronto: alergia a corante.
Esse é um dos mitos mais persistentes da alergia alimentar. O corante está presente em balas, sucos, gelatinas e em inúmeros alimentos processados. Por ser tão visível e tão frequente na alimentação, acaba levando a culpa por quase qualquer reação que acontece depois de comer.
O problema é que esses produtos contêm vários ingredientes. A reação pode ter sido provocada por outro componente ou pode nem sequer ter relação com o alimento. Urticárias agudas são comuns, especialmente durante infecções, e muitas vezes surgem justamente no mesmo período em que a pessoa consumiu algum produto colorido. O corante vira culpado apenas porque estava na cena do crime.
Quando saímos das suspeitas e partimos para as provocações, os números mudam completamente.
Em um grande estudo populacional britânico, 7,4% dos entrevistados acreditavam apresentar algum problema relacionado a aditivos alimentares e 1,4% atribuía seus sintomas exclusivamente a eles. Depois da investigação e de provocações duplo-cegas controladas por placebo, apenas três de 81 pessoas avaliadas apresentaram reações consistentes. A prevalência estimada de reações a aditivos na população caiu para 0,026%, aproximadamente três pessoas a cada dez mil. E esse número ainda incluía todos os tipos de aditivos e reações, não apenas alergia a corantes.
Uma pesquisa pediátrica publicada em 2020 encontrou uma diferença igualmente impressionante. Foram realizadas 45 provocações em crianças com suspeita de reação a corantes ou ao benzoato de sódio. Quarenta e quatro foram negativas. Isso significa que 97,8% das suspeitas não se confirmaram. Houve somente uma provocação positiva.
Em outro estudo, 102 pessoas que relacionavam episódios de urticária ou angioedema à tartrazina foram submetidas a uma provocação duplo-cega controlada por placebo. Apenas uma reagiu, o equivalente a aproximadamente 1% do grupo.
Isso significa que alergia a corantes não existe? Não. Ela existe, mas é extremamente rara.
O carmim, por exemplo, é um corante vermelho natural produzido a partir da cochonilha. Ele pode conter resíduos de proteínas capazes de provocar uma reação alérgica IgE mediada e existem casos documentados de urticária, angioedema e até anafilaxia. Mas esses casos são exceções e estão muito distantes da quantidade de pessoas que recebe o rótulo de “alérgica a corantes”.
Os exames de sangue e os testes de pele utilizados habitualmente para investigar alergia alimentar não diagnosticam alergia a corantes. Quando existe uma suspeita que realmente precisa ser investigada, o teste de provocação oral supervisionado é a única forma confiável de confirmar ou afastar o diagnóstico. Como qualquer TPO, ele deve ser realizado em ambiente preparado para reconhecer e tratar possíveis reações.
Portanto, não se diagnostica alergia pela cor do alimento. Você pode até retirar balas, sucos e outros produtos que contenham corantes por considerar que não são alimentos saudáveis. Mas não faça isso simplesmente por uma suspeita de alergia que nunca foi confirmada.
Se houver uma história realmente suspeita, ela precisa ser investigada por um especialista. Na imensa maioria das vezes, o corante foi apenas acusado de um crime que não cometeu.