Algumas crianças parecem apenas seletivas. Demoram para comer, mastigam demais, cortam tudo em pedaços minúsculos, bebem água depois de cada garfada ou evitam carnes, pães e alimentos mais secos.

Às vezes, elas aprenderam a fazer isso porque engolir é desconfortável.

Uma das possíveis causas é a esofagite eosinofílica, uma doença inflamatória crônica do esôfago associada a mecanismos imunológicos. Em crianças menores, ela pode aparecer como recusa alimentar, vômitos, dor abdominal, refluxo que não melhora como esperado ou dificuldade para ganhar peso. Nos maiores e adolescentes, são mais comuns a sensação de comida parada, a dificuldade para engolir e os episódios de alimento impactado.

O detalhe curioso é que a criança pode se adaptar tão bem que deixa de reclamar. Ela simplesmente demora, escolhe texturas mais fáceis e cria maneiras de fazer a comida descer. A família passa a enxergar aquilo como um hábito.

Apesar de a suspeita começar pela história e pelos sintomas, é fundamental realizar uma endoscopia digestiva alta com biópsias do esôfago para estabelecer o diagnóstico definitivo. Nenhum exame de sangue ou teste de alergia substitui essa etapa.

A esofagite eosinofílica tem uma relação próxima com as doenças alérgicas, inclusive com a alergia alimentar, mas elas não são sinônimos. Existem pessoas com esofagite eosinofílica sem alergia alimentar, pessoas com alergia alimentar sem esofagite eosinofílica e uma parcela importante de pacientes que apresenta as duas condições associadas.

O tratamento pode envolver terapia dietética e medicamentos. Entre as opções medicamentosas, existem tratamentos de ação local, medicamentos sistêmicos e, em casos selecionados, imunobiológicos. A escolha depende do perfil, da idade, da gravidade e das necessidades de cada paciente.

Nem toda seletividade alimentar é esofagite eosinofílica. Mas quando existem engasgos, vômitos recorrentes, dor, refeições excessivamente longas, necessidade constante de líquidos para engolir ou alimento parado no esôfago, vale investigar.