Quando pensamos em dermatite atópica, as primeiras imagens costumam ser as lesões na pele, a coceira e as noites mal dormidas. Mas, nos casos graves, o impacto da doença pode ir além da pele e alcançar até o crescimento da criança.
Vivemos uma nova era no tratamento da dermatite atópica, com medicamentos capazes de atuar em mecanismos específicos da inflamação. Para crianças pequenas, faixa etária em que a doença pode comprometer uma fase importante do crescimento, o dupilumabe é atualmente o único imunobiológico disponível e foi justamente o medicamento avaliado em um novo estudo.
O que a pesquisa encontrou?
Os pesquisadores analisaram dados de 123 crianças entre 6 e 11 anos com dermatite atópica grave que participaram de um estudo clínico com dupilumabe.
No início da pesquisa, essas crianças apresentavam, em média, estatura abaixo do esperado quando comparadas à população geral. Essa diferença era mais evidente entre aquelas que já se encontravam nos percentis mais baixos de crescimento.
Durante as primeiras 16 semanas, as crianças tratadas com dupilumabe apresentaram maior recuperação da trajetória de crescimento do que aquelas que receberam placebo. Também houve melhora em marcadores relacionados à formação e à mineralização dos ossos.
Depois desse período, as crianças que inicialmente receberam placebo passaram a utilizar o dupilumabe e também apresentaram recuperação do crescimento.
Por que uma doença da pele poderia afetar a altura?
Ainda não existe uma resposta única. Provavelmente, vários fatores participam ao mesmo tempo.
A dermatite atópica grave provoca uma inflamação persistente, capaz de consumir energia e interferir no funcionamento de diferentes partes do organismo. A coceira intensa também fragmenta o sono, justamente durante uma fase em que dormir bem é fundamental para o crescimento e o desenvolvimento.
Algumas crianças ainda recebem dietas muito restritivas por suspeitas não confirmadas de alergia alimentar. Quando essas exclusões são feitas sem indicação adequada e sem acompanhamento nutricional, podem faltar calorias, proteínas, cálcio e outros nutrientes importantes.
O uso frequente ou prolongado de corticoides sistêmicos também pode interferir no crescimento. Já os corticoides tópicos, quando corretamente escolhidos e utilizados, continuam sendo tratamentos importantes e seguros para o controle da dermatite. O medo dessas medicações não deve deixar a criança convivendo com uma doença inflamada e descontrolada.
Então o dupilumabe faz a criança crescer?
Essa não é a conclusão do estudo.
O dupilumabe não é um medicamento para aumentar a altura. O que a pesquisa sugere é que, em crianças com dermatite grave e crescimento comprometido, controlar adequadamente a inflamação pode permitir que o organismo retome uma trajetória mais próxima do seu potencial.
Também não é possível afirmar que toda criança com dermatite atópica terá alteração de crescimento ou que todas apresentarão recuperação semelhante com o tratamento.
A análise foi realizada a partir de um estudo clínico anterior e envolveu um número relativamente pequeno de crianças. Portanto, os resultados são importantes e biologicamente coerentes, mas ainda precisam ser confirmados por pesquisas maiores e com acompanhamento mais prolongado.
Dermatite atópica grave não é apenas uma coceira
Uma criança que dorme mal, coça a pele continuamente, apresenta feridas recorrentes e convive com inflamação persistente não está enfrentando apenas um problema estético.
Nos quadros moderados ou graves, é importante acompanhar não apenas a pele, mas também o sono, a alimentação, o desempenho escolar, a qualidade de vida, o peso e a altura.
Quando o tratamento habitual não consegue controlar a doença, existem terapias avançadas que podem ser consideradas de acordo com a idade, a gravidade e as características de cada paciente.
O objetivo não é apenas deixar a pele mais bonita. É devolver conforto, sono, desenvolvimento e liberdade para a criança viver plenamente essa fase da vida.
Referência: Irvine AD e colaboradores. Dupilumab treatment improves linear growth and bone biomarkers in children with atopic dermatitis: Post hoc analysis of a phase 3 randomized, placebo-controlled clinical trial and an open-label extension study. Journal of the American Academy of Dermatology, 2026. Consultar estudo.